25-04-2006

Dia inicial

                                  25 DE ABRIL  

             

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo
                    Sophia de Mello Breyner Andresen              
                   
      *      
   
 do silêncio da noite


acordo para aquela madrugada ansiada


no novo dia claro e aberto


um grito


e renasço de mim mesma


10-02-2006

Celestial


Era Agosto. Os claustros do Convento de Mafra por palco*. O céu estrelado por tecto. Não pude deixar de recordar quando tinha ouvido falar do Joel Xavier pela primeira vez. Há mais de 10 anos. Era ele ainda muito jovem. Desde então, uma vida inteira parecia ter passado por mim. Tinha mesmo.  Deixei as minhas recordações sem esforço. O centro do mundo era agora apenas feito dos sons divinais que os dedos do Joel produziam através da sua guitarra. O que senti o tempo todo ao ouvi-lo? Acho que foi, simplesmente, aquilo que qualquer ser minimamente sensível, amante da música, da bela arte e da cultura em geral sente sempre que escuta e/ou vê uma obra-prima do ser humano feita obra-prima da natureza. Quando as coisas são muito belas sempre tive dificuldade em distingui-las. Talvez porque, afinal, sejam uma só. Os nossos olhos brilham e uma ou outra lágrima de um fascínio e alegria imensos teimam em saltar de quando em vez. O coração bate confortado umas vezes e descompassado outras. Na garganta, a dados momentos, um nó que parece impossível desfazer. Um arrepio percorre-nos, a dados momentos. Será uma aragem? Não! É mesmo a emoção pura que toma conta de nós todos, corpo e alma.
Ontem, por acaso (?), confrontei-me com o “Joel Xavier & Ron Carter in New York”. Sei que fixei a capa vermelho-vivo durante uns segundos em que esqueci o tempo e o lugar. Peguei-lhe, acho que quase com carinho, e não pude mais deixar de o ouvir uma e outra vez, como se cada uma fosse sempre a primeira. Magnífico! Celestial! Ainda assim tão pouco para descrevê-lo. Melhor ouvir, para amar, estou certa.



http://www.joelxavier.com (para visitar todo o site do Joel)  

 http://www.joelxavier.com/Discografia.htm (para aceder directamente a algumas das suas obras)


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* Concerto de Joel Xavier (guitarra), acompanhado de Thomas Stabenow (contrabaixo), que teve lugar no Convento de Mafra a 13 de Agosto de 2005.

24-01-2006

Carneiros, lobos, pastores e cães de guarda e pastoreio

Era uma vez... Há um mundo... – Breve história contada pelo meu amigo F, com adaptações, de modo a poder ser acedida por todo o tipo de leitores

Existe um mundo em que há os carneiros (a maior parte da população do tal mundo), que andam todos, como manda a lei, ordeiramente em rebanho; depois há os lobos, que dão cabo de tudo (escusei-me a utilizar o termo original, por aquele poder ferir os espíritos mais sensíveis…); há ainda os pastores, uns “pobres” (eufemismo do termo original de novo) cegos, convencidos de que já sabem tudo o que há para saber; por fim, os cães de guarda e pastoreio, que dão a vida por aquela “coisada” toda, mas cuja paga é só a chibata todos os dias.

(Porque adoro happy endings…)

Mas os cães são seres fortes, muito fortes, e, contra todas as expectativas dos restantes comuns cidadãos desse mundo, e, sobretudo, contrariando as esperanças formuladas ardentemente pelos lobos e até pelos pastores, voltam todos os dias à carga, de caudas e orelhinhas bem erguidas, com o desafio espelhado nas ditas, por um mundo com VIDA!

 

O guarda-rio

O guarda-rio – Porto de pesca de Setúbal – Jan. 2006

 

 

Guarda-rio em momento de pausa para descansar…

De lutar?

No way! Só para retemperar forças…

I’ll be back for more!

Citius, altius, fortius!

 

 

 

 

 

De perto e de longe

Um dia feliz - Jan. 06

Rio Sado – Jan. 2006

País de perto. País de longe.

País ao perto. País (tão) longe.

 

22-01-2006

Retrato de um povo já carcaça só

Triste povo que se diz povo

Pobre de si

No horizonte só o eterno retorno

De si para si

 

Pobre povo que se sabe povo

Pobre espírito

Abandonado à miséria de só ser povo

Pobre de espírito

 

Nas brumas do presente

Que norte?

No nevoeiro do futuro

Que sorte?

                                                                                   

 

Ao longe, muito longe, só mesmo a ilusão da felicidade



retrato de um povo já carcaça só - Porto de pesca

Retrato de um povo já carcaça só - Porto de pesca de Setúbal - Jan. 06

21-01-2006

Que ninguém mais cerre "as portas que Abril abriu"!

"... a fonte das realizações humanas não serão mais as pessoas extraordinárias, mas a combinação extraordinária de pessoas". Robert Hargrove


Começámos a falar da escola, como não poderia deixar de ser (ultimamente, por força de muitas medidas tomadas pelo Ministério, o assunto é ainda mais recorrente que habitualmente), do que se faz porque e por quem se ama, digam o que disserem, e que se sobrepõe a tudo o resto que nos desagrade na profissão, do que se faz porque tem que se fazer, porque mandam os decretos, os chefes, o sistema, quer se concorde mais ou menos com os ditos, do que, sobretudo ultimamente, não se faz, mesmo que o mandem os tais decretos e chefes, porque se está contra o sistema e se pensa que, dessa forma, o boicotamos. A verdade é que, concluímos, ao fazê-lo não é contra o sistema que lutamos, mas contra os miúdos. Seremos como aqueles espertalhões que acham que um STOP num determinado local parece despropositado e, por isso mesmo, quando com ele se confrontam, não havendo sinal da polícia, ala sem parar. Atrás da nossa atitude displicente, tão pouco profissional, vêm os comportamentos menos adequados dos miúdos, que se limitam a seguir os “modelos com pés de barro”. Se não nos sentimos bem com muito do que tem vindo a acontecer na/à educação, talvez não seja a escola o melhor local para protestar. Abandonemos esta “indigência de espírito”. Mantenhamo-nos sempre alerta, agucemos a nossa lucidez, inteligência e criatividade, combinemos os nossos esforços (juntos construímos algo maior e melhor do que a soma das partes construiria), manifestemo-nos nos locais e momentos próprios e, acredito, iremos colhendo frutos, que poderão alimentar sadiamente todo os elos do sistema. Trata-se de saber realizar colectivamente em detrimento de cultivar o individualismo, que apenas serve os interesses de alguns.

Conversa puxa conversa, acabámos a falar de pássaros, dos migratórios, e da razão de ser da sua formação em V. Estes seres, aparentemente tão frágeis, possuem um saber que parece faltar aos homens. As aves que vão à frente são capazes de suportar enormes pressões, para poupar o esforço das outras. Quando um dos líderes se cansa, outro, mais fresco, substitui-o. Deste modo, conseguem cobrir o dobro da distância que seriam capazes de percorrer se voassem sós.

Porque partiram? - Nelson Afonso

                                   Foto: Nelson Afonso

 

Da mesma forma, na direcção de uma escola têm que estar elementos que, sem nunca se distanciar das diversas realidades em que são obrigados a mover-se, dando um dos melhores exemplos de parceria que pode existir, se revezam, se dão força mutuamente, abrem trilhos para que o resto da comunidade educativa tenha o caminho facilitado para o melhor desenrolar da sua existência. Estará parte desta comunidade tão cega que não se apercebe desta realidade? Estará ela tomada por uma visão tão limitada dos acontecimentos que “atira a matar” sobre a direcção da escola, ou sobre outros colegas, porque são o alvo mais próximo e fácil de, aparentemente, poder ser abatido, ou, pelo menos, enfraquecido?

No reino das aves, a que vai à frente é, antes de mais nada, a que dá o máximo de si para servir a causa colectiva. Em contrapartida, as que vão mais atrás, tirando partido da propulsão de ar que as da frente produzem, conseguem poupar muito mais energia, ficando, assim, com muito mais para dar. Desta feita, as amigas aves dão nova lição ao povo, e, sobretudo, aos nossos políticos, que talvez devessem todos dar-se o tempo de, de quando em vez, pararem, olharem um bando de aves migrando com destino ao sol, e aprenderem com elas. Num país em que parece vencer sobretudo quem grita mais alto, quem faz o maior folclore, quem melhor sabe aparentar sem nada ter, quem parece ser mais espertalhão, etc., sempre com o maior apoio dos media,  ao menos de quando em vez, parem, assumam que o que os move não é mais (talvez nunca tenha sido) o destino de um povo, mas tão só a vaidade, a loucura do poder, a ambição exacerbada, a vontade de rasteirar o outro e de vê-lo a arrastar-se pelo chão, quando poderia caminhar lado a lado com ele, no mesmo sentido, o único possível, o do povo todo.


Que ninguém mais cerre “as portas que Abril abriu”!


 

Esta gente – Sophia de Mello Breyner Andresen
(recado para domingo, 22.01.2006, e para todos os dias…)

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo